Mensagem do Presidente José Veiga Maltez
Eis a XXXI edição da Feira Nacional do Cavalo, cumprindo igualmente, e uma vez mais, a tradição do S. Martinho, que na Golegã tem uma memória secular. Como sempre, esta Feira é fruto de um somatório de vivências, de actos e factos que ditaram a sua personalidade ímpar. Nela se cruza o passado e o presente, e convivem a nostalgia, a mudança e até a desmemória. Esta última foi mesmo intencional durante aqueles períodos em que alguns tentaram apagar certos “códigos ético-deontológicos”, próprios dos “grupos” que ao longo dos tempos foram dando à Feira a sua identidade, cuja forma e conteúdo se cristalizam na tradição. Contudo, alguma dessa mesma desmemória é hoje também espontânea, e certamente consequente ao desinteresse e à falta de compreensão pelas causas e pelos estímulos que forjaram os efeitos e as consequências da realidade que é hoje a Feira, e cuja compreensão infelizmente escapa a muitos. É também um caso de “ileteracia”, própria de um défice educacional e cultural, resultante de más apostas e de ausência de estratégias nos últimos 25 anos.
Não temos nenhuma obsessão pelo passado. Respeitamo-lo, sem ser “passadistas” ou “revivalistas”. Indagamo-lo para estabelecer nexos explicativos entre o que aconteceu e o que ocorre. Usamo-lo no que tem de positivo para constituir uma referência, e como ensinamento naquilo que tem de negativo. Muitos descuraram-no, e por isso tentam agora recuperar um tempo perdido por terem “demolido” pontes entre o passado e o presente. Disso é exemplo a desconsideração que alguns demonstraram pela tradição ribatejana, como se não fosse uma das mais emblemáticas do País. E hoje, começam a exaltar o Ribatejo e os seus ícones, numa corrida contra o tempo, percebendo finalmente que é na tradição e na genuína identidade cultural que residem os alicerces e os pilares de um desenvolvimento sustentado e com argumento. E tem sido essa a nossa luta, desde que lideramos os desígnios do Município da Golegã e da sua Feira.
Porque já o tínhamos compreendido, sentimo-nos legitimados a continuar a usar de determinada firmeza, autorizados por uma convicção que na prática se tem revelado a indicada, embora sempre receptivos à crítica construtiva, ao debate e aos diferentes saberes.
Por isso, continuamos a implementar, com a mesma dinâmica e ritmo iniciais, condutas que promovam a defesa da essência da Feira, numa convivência salutar e harmoniosa, só salvaguardada por dois conceitos fundamentais numa sociedade democrática: a Cidadania e o Civismo. Tal só vem sendo possível com a imposição de medidas, que restrinjam algumas atitudes menos próprias e promovam alguns comportamentos mais desejáveis. São disso exemplo a reformulação do tráfego rodoviário, a matriculação dos carros de cavalos ou as regras de apresentação no Picadeiro Central, entre outras, como a recente deliberação, a vigorar já este ano, da restrição de circulação de carros de cavalos na manga e picadeiro da Feira, durante um período das tardes de sexta-feira e do dia de São Martinho. É uma questão de civismo, para melhorar o bem-estar colectivo, porque a atitude cívica é inseparável da ética, e o civismo é, em última instância, uma atitude de defesa da nossa Vila e da sua cultura, da qual faz parte a Feira.
Temos memórias, valores e heranças patrimoniais que importam preservar, sob pena de perdermos aquilo que nos diferencia e nos individualiza. E nós não queremos que isso aconteça !!
José Veiga Maltez
Presidente da Câmara Municipal da Golegã
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